21 de janeiro de 2018

Pelo direto de desmoronar


M
inha vida está bagunçada de tantas formas que nem sei por onde começar. Esse ano eu faço trinta. 30. Se alguém me dissesse há quinze anos atrás que nesta altura do campeonato eu ainda não teria publicado um livro, não teria uma casa própria e independência financeira, certamente mandaria a pessoa para algum lugar nada agradável.


Eu trabalho desde os 15. Na verdade, bem antes disso. Talvez o entrevistador tenha se impressionado ou, talvez isso nem fosse motivo para ter orgulho. Afinal, nessa idade ninguém deveria estar mesmo tão preocupado em ganhar dinheiro. Eu nunca pedi para ser um exemplo de luta e força. Isso não deveria ser imposto para ninguém. As pessoas me admiram por eu ter me formado, comprado um carro, mas não sabe o preço que estou pagando. Elas pegam apenas o lado bonito, o que convém e te transformam num exemplo, num sinal de como a vida delas é boa e deveriam reclamar menos.
Umas das entrevistas era para a vaga de recepcionista. Algo com o qual eu trabalhei por quase cinco anos e quando parei, falei para mim mesma que não voltaria mais — por estar cansada. Entretanto, a falta do dinheiro te faz fazer coisas. Então você percebe o quão frágil é a linha entre o certo e o errado. O fato de ter ensino superior completo, ao invés de ajudar, atrapalha a arrumar um emprego.
Desculpa, mas não consigo ser forte, ser um exemplo sempre. Há dias nos quais eu só quero parar de correr, guardar o título de guerreira e ter tido melhores oportunidades na vida. Eu gosto da minha história e tenho orgulho de mim. Mas, deve ser bom não ser culpada sempre pela atual situação da sua vida, pois nem tudo depende apenas de força, foco e fé.
31 de dezembro de 2017

Feliz ano novo.


Eu não queria ser má comigo mesma na última noite do ano. Enquanto pensava isso, meu porta diploma descansava a poucos metros de mim. No spotify tocava The night we met (Lord Huron). No bate papo do face, uma prima - recém separada - precisava de algum conforto. Tentei dormir durante a tarde, mas não consegui, as preocupações provocavam batidas descompassadas no peito. Péssimo momento para ter parado a terapia por falta de dinheiro. 

Na hora do almoço, de touca e pano úmido em uma das mãos, eu trabalhava para que tudo saísse da forma que a minha mãe queria. Nada menos que perfeito. Agora eu percebi: não conseguimos ter uma conversa decente que não se resumisse em comida, cliente, marmitas, você não fez isso ou aquilo. Concluí que era impossível agradá-la. De certa forma sempre foi. Eu a via sorrindo, mas era um sorriso de quem havia implodido e soltava faíscas. Nossa relação, agora também de trabalho, se assemelha com aqueles caldos cujos os ingredientes não foram o suficiente para engrossar e ficar bom. 

Meu avô materno me abraçou muito quando chegou. Eu deveria estar cheirando a algo defumado, mas ele sorria e me falava de orgulho. Orgulho por eu ter me formado e agora ser uma "doutora". Ele nem deve ter se dado conta que pegou meu coração na mão por uns segundos e o aqueceu suavemente. Fiquei me questionando qual foi a última vez que eu senti orgulho de mim, que eu me abracei e valorizei meu esforço. Eu só tenho me maltratado desde a colação ou desde que sai do estágio.  

2017 não foi aquele ano. A sensação que fica é de não ter feito o suficiente, de ter feito escolhas erradas. Mas, eu não posso me culpar pelas coisas que não dependiam apenas de mim. Não dá para controlar tudo ou prever. 
25 de dezembro de 2017

Dez conselhos para meu eu de 21 anos

Lendo um post da Camila Fernandes (veja aqui) resolve fazer a brincadeira das dez coisas que você diria, se tivesse a chance, ao seu eu mais jovem. Reli minhas escritas do ano de 2009 e montei a lista abaixo. Como ela mesma sugeriu, vai que existam outras de vinte e um por aqui precisando de uns conselhos?

1.        Você não vai odiar para sempre as segundas-feiras. Acredite em mim quando digo que você vai encontrar prazer em levantar para trabalhar. Será um estágio, com tempo limitado, mas, uma experiência incrível que te fará descobrir muito sobre você mesma. Como por exemplo: Sua paixão por sala de aula – parece mentira, eu sei. E o interesse e desenvoltura para falar sobre sexualidade com adolescentes (não ria). Leia mais sobre feminismo e empoderamento. E ah, os projetos da sua cabeça podem dar muito certo.
2.        Você vai conhecer alguém que a mereça sim. Vai demorar um pouco, certo? Enquanto isso vai focando em outros objetivos ao invés de ficar na bad toda vez que ver um casal. Quando o conhecer, no começo pensará que ele é gay. Depois de seis anos juntos – ainda sem casar e sem filhos (você não vai querer mesmo ter um), verá que a venda de uma rifa vai render muitos encontros e aventuras loucas. Será ótimo ter esperado.
3.        Pare de se maltratar tanto, principalmente o seu corpo. Um dia você vai perceber que toda essa briga com a balança não vai te levar a lugar nenhum. E irá tentar fazer as pazes consigo mesma, graças a uma onda de auto aceitação e comer consciente defendida por nutricionistas e outros profissionais. Lembrando que ainda continuará gostando muito de doces (oi, paçocas!), massas e a pipoca de cinema com muita manteiga será sua preferida. Achará muita loucura tomar laxantes, tentar vomitar e ficar longos períodos sem comer e, se arrependerá por ter feito isso e não pelo peso obtido.  
4.        Seu cabelo não é seu inimigo. Não precisa ficar se submetendo a tratamentos capilares duvidosos, afinal a chapinha sempre estará disponível para quando quiser mudar um pouco. Descobrir que pode sim se achar bonita com o cabelo cacheado (e liso também) vai transformar sua vida e rotina.
5.        Desista de tentar ser quem você não é apenas para agradar. Não é sua obrigação entreter os outros, o papel de gordinha-simpática não precisa ser seu se você não quiser. Não é que você tenha um problema, é do seu jeito ser solitária, se cansar de fazer social, evitar multidões e preferir ficar sozinha na maioria das vezes. E quer saber? Tudo bem. Lide com isso, pois você não precisa se ajustar feito roupa para caber no gosto dos outros. Aceite isso e o que parece um problema gigante, não passará de um incomodo raramente.
6.        Não meça sua beleza a partir da beleza das outras garotas. Se você prestar bastante atenção, vai perceber que as mulheres vivem se depreciando por causa de alguma coisa e isso não pode ser encarado como culpa delas ou como normal. Haverá pessoas que a acharão linda e outras que não, vida que segue.
7.        Curta mais suas primas e os amigos. Um dia esses momentos juntos, os micos e os roles serão apenas uma lembrança boa. Algumas das amizades que você jura ser para sempre não vai rolar mais daqui oito anos. Alguns serão como estranhos. E não há problema nisso, as coisas mudam para todo mundo. Portanto, durma mais na casa das suas primas, vão à igreja, na praça, enfim, se divirtam, riam. No futuro, outras preocupações vão preencher o tempo e quase não vai dar para se ver mais.
8.        Parece mentira, mas não é: ir à igreja não será tão importante assim. Tanto para você, como para as pessoas que insistiam para você ir. Os rituais, todos eles parecem cruciais agora, mas no futuro, buscar conforto em Deus vai ultrapassar a ideia de lugar. Você vai sentir saudades e até pensará em frequentar templos, tudo isso sem um pingo de sentimento de obrigação.
9.        Não jogue a culpa toda nos seus pais. Você poderia estar melhor se eles tivessem feito isso ou aquilo? Talvez. Porém, chega um momento no qual a gente precisa começar a se responsabilizar pela vida de agora e pelas consequências das próprias escolhas. E ai você vai ver que eles foram até onde conseguiram e fizeram o que podiam, do jeito deles. O seu convívio com seu pai não será uma Brastemp, as brigas acabaram, por falta de relacionamento mesmo. Ele foi à sua colação. E a sua mãe abriu uma cantina e realmente vocês não podem mais morar juntas.  

10.     Busque ajuda: faça terapia! Se eu pudesse resumir essa lista em apenas um item seria este. Sério. Caso não tenha dinheiro para pagar um psicólogo, converse com alguém de confiança, sobre todas essas coisas doloridas ai dentro. Não guarde só para você. Fará um bem e uma diferença enorme. Você vai ver e no fim desejará ter feito isso muito antes. 

E você? Quais seriam seus conselhos? 
Feliz natal!